100 ANOS DO AXÉ OPÔ AFONJÁ
O terreiro Axé Opô Afonjá está completando 100 anos de existência. É uma das casas de candomblé da Bahia mais antigas, fundada pela Mãe Aninha (Eugênia Ana dos Santos), no início do século passado, após dissidências internas na Casa Branca próprias da expansão do culto e de afirmações do poder entre esses religiosos. Como organização religiosa, o candomblé na Bahia tem 200 anos de existência ou pouco mais desde que se fundou o Iyá Omi Asé Airá Intilé próximo à igreja da Barroquinha, na antiga Ladeira do Berquó.
O culto, em si, diz-se que é até mais antigo com base nos calundus coloniais. Agora, como organização, como uma casa estabelecida sob a liderança de Oxossi e Ketu e o Xangô de Oyó seria datado de 1794 graças a um grupo de homens e mulheres de tradição Ketu lideradas pela Iá Nassô, sacerdotisa do culto de Xangô e originária da Corte de Oió, Nigéria, constituindo-se num candomblé nagô-iorubá.
Daí, esse terreiro se mudou com a expansão da cidade para Avenida Vasco da Gama (Casa Branca, Ilê Ianassô, onde está até hoje). O então presidente da Província, Francisco Gonçalves Martins, realizou obras de urbanização do antigo centro na Barroquinha e Rua da Vala (Baixa dos Sapateiros) retirando as comunidades do seu entorno.
As pesquisas defendem a versão de que com a morte de Iá Nassô, Marcelina Obatossi, mãe de santo da Casa Branca, uma de suas filhas, Maria Júlia Figueiredo, assumiu o comando do axé. Essa nomeação, considerada polêmica, abriu a dissidência para nascer daí o Gantois através de outra Maria Júlia, esta Conceição Nazareth.
E, posteriormente, o Axé Opô Afonjá, dois terreiros jeje nagôs produtos do Brasil Tropical Atlântico, que a África não conheceu, segundo Antonio Risério.
Isso significa dizer que os terreiros de candomblé da Bahia têm ancestralidade africana, mas, peculiaridades próprias do Brasil.
O Axé Opô Afonjá, por exemplo, tem na sucessão de suas mães de santo uma decisão mais democrática porque não está baseada nos laços sanguíneos familiares da sacerdotisa, tanto que a mãe Stella de Oxossi, atual ialorixá do Afonjá, eleita asssim foi pelos orixás.
Já no Gantois, a transmissão do poder máximo da Casa passa de mãe (consaguínea) para as filhas, hoje, sob o comando da mãe Carmen que é filha de parto da mãe Menininha do Gantois.
O importante, no entanto, é que o Afonjá completa 100 anos de existência com várias comemorações e eventos na cidade, inclusive sessões especiais na Câmara dos Vereadores e na Assembleia Legislativa e demais homenagens.
E o Gantois lança o Memorial Mãe Menininha do Gantois, uma Seleta do Acervo, também esta semana. A Bahia, assim, mantém a cultura do povo de santo viva e respeitada.